Criado por oito amigos, Rosie consegue levantar todo tipo de despesa na administração pública; ferramenta será a inimiga da farra administrativa

Da redação

As autoridades brasileiras são permissivas aos extremos. Neste país, os ocupantes de cargos públicos, sejam nomeados ou concursados, têm uma grande dificuldade de separar o público e o privado.

O uso indevido de carros oficiais de forma indevida, gastos irregulares com diárias e nomeações de parentes de autoridades em cargos comissionados estão entre as extravagâncias que sangram o bolso do contribuinte.

A permissividade é um traço cultural, infelizmente. Na Suíça, recentemente, uma ministra perdeu o cargo por comprar um chocolate com dinheiro público. No Brasil (imagina), isso é banal.

A legislação tem proporcionado mecanismo para coibir, mas, muitas vezes, a fiscalização é falha. Mas tecnologia nos traz instrumentos para acompanhar esses descompassos com uma lupa. É o que mostra uma excelente reportagem da jornalista Tâmara Teixeira no jornal O Tempo.

A reportagem fala sobre Rosie, um robô que atua no levantamento de dados na administração pública.

Em apenas dois meses, Rosie descobriu 3.553 casos suspeitos envolvendo a cota parlamentar dos deputados federais de todo o país. O robô foi criado por oito amigos que atuam na área de ciência de dados para fiscalizar as despesas dos deputados.

A ferramenta, segundo a reportagem, cruza informações das notas apresentadas para reembolso com outras, como as da Receita Federal, a presença em plenário, a localização e as características do lugar onde a compra foi feita.

Assim, por exemplo, já foi encontrada uma nota de R$ 170 de um restaurante onde o quilo da refeição custa R$ 14. Ou seja, teriam sido consumidos 12 kg em um dia. Ainda tem o reembolso de um almoço de R$ 41 feito em São Paulo, apenas 35 minutos depois de o deputado ter discursado em Brasília.

Só na última semana, 849 casos foram auditados. Destes, 629 resultaram em denúncias envolvendo R$ 378,8 mil pagos com dinheiro público por 216 deputados. O projeto responsável pelos levantamentos recebeu o nome de Operação Serenata de Amor. O nome revela a intenção de desvendar fraudes com valores pequenos.

“Na Suíça, uma ministra perdeu o cargo por ter comprado com dinheiro público um chocolate Toblerone. A ideia é ter um detalhamento tão preciso que seja capaz de detectar um chocolate pago irregularmente”, explica um dos membros, o publicitário Pedro Vilanova.

A base de dados considera todos os reembolsos dos deputados que passaram pela Câmara Federal desde 2011. “Alguns dos denunciados, dessa forma, já não estão mais no cargo, mas terão que prestar contas igualmente”, diz Vilanova.

Por orientação jurídica, eles só divulgam o nome dos parlamentares depois de terem tido um retorno da Câmara. Entre os episódios em que já conseguiram não só resposta da Casa, mas a devolução do dinheiro pago equivocadamente está o do então deputado Odelmo Leão (PP-MG), eleito prefeito de Uberlândia. O mineiro gastou R$ 190,05 da cota parlamentar com envio de correspondência da sua campanha.

Em agosto passado, Marco Maia (PT-RS), por exemplo, pediu ressarcimento de R$ 154,50 por duas refeições. Ele devolveu, em dezembro, R$ 77,25, referentes a um almoço. De acordo com as regras da Cota de Atividade Parlamentar, as despesas são autorizadas apenas para os parlamentares.

O robô ainda encontrou um reembolso de R$ 135,15 para Vitor Lippi (PSDB-SP) na compra de cinco cervejas durante uma viagem à Califórnia, nos Estados Unidos. O tucano devolveu o valor e pediu desculpas.

“Aproveito para assumir a responsabilidade pelo erro cometido, é de praxe dessa assessoria pedir a glosa de itens não autorizados, como bebidas alcoólicas, mas infelizmente dessa vez não identifiquei o produto, já que estava em outra língua”, alegou o parlamentar no mês passado.

Já o deputado Rocha (PSDB-AC) apresentou três notas de alimentação do mesmo dia. Duas delas, de R$ 52 e R$ 43, foram emitidas em Rio Branco, no Acre. A outra, de R$ 148, a 4.000 km, em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. Ele alegou que o segundo reembolso foi de uma despesa feita uma semana antes. Como estava com pressa no dia, pediu a um assessor que voltasse outro dia para emitir o cupom, o que, segundo ele, explicaria a coincidência de data. Sem convencer ninguém, devolveu R$ 148.

SALVE ROSIE

Rosie promete ser a sensação do jornalismo investigativo. Imagine quando sua atuação chegar aos governos Estaduais, Assembleias Legislativas, Prefeituras e Câmaras de Vereadores. Não haverá mais segredos ou pecado rasgado do lado de baixo do Equador.

Serenata de amor

*Com informações de O Tempo

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