Extração se tornará muito mais desafiadora entre 2020 e 2040, com metade da extração em plataformas continentais

De Época

A indústria do petróleo vive um momento importante de transição. Se, há 25 anos, a maioria da produção (cerca de 75%) vinha de campos considerados “fáceis”, localizados em terra firme, daqui a 25 anos, o cenário será bem diferente. A estimativa é que, em 2040, cerca de um quarto do petróleo virá de fontes de fácil acesso, enquanto quase metade virá de locais onde o processo de extração é bem exigente (como na plataforma continental) e o restante, de fontes classificadas como desafiadoras (como o Ártico e as águas profundas).

A previsão consta do estudo “The Value of Closing Current Technology Gaps” (O ganho em superar atuais lacunas tecnológicas, em tradução livre), apresentado na última semana durante a Conferência sobre Tecnologia de Águas Profundas, no Rio. O trabalho também indica que os altos custos para explorar zonas marítimas, aliado ao baixo preço do petróleo, estão levando o setor a uma situação insustentável. Como saída, indica tecnologias que exercerão um papel-chave para viabilizar (ou baratear) a exploração de novos campos no futuro.

“O óleo fácil acabou”, disse Morten Wiencke, que apresentou a pesquisa a uma audiência formada por representantes de empresas como Petrobras, Shell, Statoil e GE, além de órgãos como o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis). Wiencke é membro do Programa de Colaboração em Tecnologias de Petróleo e Gás, da IEA (Agência Internacional de Energia), que organizou a conferência em parceria com a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos).

Confira três tecnologias que se tornarão cruciais nessa nova etapa, segundo o estudo.

PERFURAÇÃO AUTOMATIZADA

Os maiores gastos na extração de petróleo (seja em terra, seja no mar) se referem à perfuração e construção dos poços. A automatização desses processos (substituindo mão de obra humana por robôs, por exemplo) traria mudanças significativas, tais como: mais rapidez no trabalho de perfuração, melhor desempenho nos indicadores de HSE (saúde, segurança e meio ambiente) e a possibilidade de usar equipes menores, o que reduziria os gastos com seguro, transporte e acomodação dos funcionários.

Se a perfuração fosse totalmente automatizada, ela se tornaria 30% mais barata, segundo o estudo. E seria possível reduzir o tempo de paralizações desnecessárias em 50%. Mas isso só será possível mediante o uso de sistemas que sejam capazes de ler e analisar dados em tempo real para controlar adequadamente todo o processo.

TUBOS MAIS LEVES

Os tubos que conectam os poços de petróleo, no fundo do mar, às plataformas ou navios são chamados de risers e representam um fator fundamental da exploração offshore. De modo geral, eles são feitos de aço, mas esse material não é indicado para águas profundas, já que nesse contexto seu peso sobrecarrega a plataforma e encarece todo o sistema. De acordo com o estudo, o uso de risers feitos de um material mais leve (compósito) é um bom caminho para viabilizar a extração de petróleo em locais onde a profundidade é superior a 3.000 metros. “Esta profundidade é, atualmente, nosso limite tecnológico”, disse Wiencke.

Ainda segundo o trabalho, estima-se que exista uma quantidade de petróleo equivalente a 45 bilhões de barris 3.000m abaixo do nível do mar. Destes, cerca de 80% estão em áreas a mais de 200 quilômetros de distância da costa. O riser compósito é uma das poucas tecnologias que permitem trazer esse volume para a superfície.

FÁBRICA SUBMARINA

O estudo também destaca a importância da fábrica submarina – o conceito implica levar equipamentos para o fundo do mar para lá mesmo separar a água do óleo, enviado apenas este para a superfície. Hoje, petróleo e água são levados até a plataforma, para finalmente serem separados. E só então a água é devolvida ao mar.

A fábrica submarina possibilitaria a obtenção de mais de 100 bilhões de barris de petróleo, dos quais 45 bilhões seriam provenientes de águas ultraprofundas (mais de 3.000m de profundidade), como citado no tópico acima. O problema é que transferir funções de processamento do petróleo para o assoalho oceânico é uma tarefa bem complexa, já que lá os equipamentos seriam submetidos a condições ainda mais adversas (imagine a pressão exercida pela água).

Para dar conta destes desafios, é necessário desenvolver um ambiente mais colaborativo, disse Wiencke. “As operadoras investem US$ 10 bilhões por ano na área de pesquisa e desenvolvimento. Mas nós recebemos aquilo pelo qual pagamos? A resposta é não, porque nós não cooperamos o suficiente.”

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