Modernidade, Cânone e Anti-Cânone: Trânsitos culturais; Em Londres: lançamento do Essays on Hilda Hilst, Palgrave, 2017

Esta proposta de coletânea, ESSAYS ON HILDA HILST, Palgrave Macmillan, 2017, fruto das interrogações de quatro pesquisadores de diferentes universidades AMERICANAS E BRASILEIRAS, espera apresentar investigações sobre a autora brasileira Hilda Hilst, agora com sua obra traduzida para o Inglês por Adam Morris (Stanford), Bruno Carvalho (Harvard), David William Foster (Arizona State). Tendo sido convidado para entre os autores brasileiros que instigam a reflexão sobre cânone e anticânone e, ainda, como estudioso da autora maldita. E aqui estou!

Aliás, a contemporaneidade ao (re)pensar a literatura, fissura as limitações canônicas e instiga a revisitação de suas fronteiras de modo que as vozes “ex-cêntricas” possam sair das margens e serem ouvidas independentes de seu locus, penso que Hilda Hilst é perfeita para tal leitura. Hilda Hilst, simultaneamente, permitindo observar que do corpo derrisório à obra de arte, da obra de arte às Ideias, há, na novela  A Obscena Senhora D (1986) na composição de sua protagonista toda uma técnica de retorno, pois é palimpséstica, de deslocação, de remissão, de disfarce e de desdobramento que não significa apenas uma circulação do discurso literário, mas transposições de estilo, do estilo hilstiano. Portanto, transcultural.

Tal transculturalidade me leva aos idos dos anos 90, mais exatamente a minha primeira leitura de Hilda em prosa: Cartas de um Sedutor (1991): “P.S. O que nos resta é a orfandade. Não é o que sentimos falta de pai e mãe. Somos órfãos desde sempre. Órfãos d’Aquele.(p. 44)” Lembro-me que fiquei bastante tempo envolvido por Cartas de um sedutor (Em Inglês, Letters from a seducer) e isso me levou a escolher a obra de Hilda Hilst como corpus investigativo da minha dissertação de Mestrado no IEL/Unicamp:

“escrevo bizarrias. Bizarria é eu ter uma caceta e não acontecer nada com ela”. (p. 105)

E:

“Nunca me esqueço daquele peido providencial prolongado e silencioso dos meus 14 anos. Eu era louco por Nena, uma crioula virgem mas bundudinha e voraz, que gostava de morder meu beiço enquanto eu a sissiricava nos meios e no meio das moitas de capim. Ao meio-dia de um domingo, depois de encher a pança com feijão, nabo carne-seca e jerimum, encontro a Nena tesuda me esperando na moita.

Agora tô a fim, ela disse. A fim de quê? De te dar a nhaca. Justo agora? E o que tem agora? Ué, porque a gente morre se berimbá de pois de encher o bucho. Bestagem, bobão, todo mundo já tava morto se pensasse como tu. (…) Pensei – vou morrer agora, aos 14 anos, sem despedir do pai da mãe da vó, o sol no meu cocoruto. Gritei sem gritar, um grito doído, uma súplica lá no fundo do peito: me salva Santo Expedito, santo dos impossíveis, me dá um sinal de que eu não vou morrer se enfiar agora na Nena. E quando ia enfiar, me veio aquele peido prolongado silencioso redondo quente gordo estufado vivo. Nena parou com o dedo caricioso. Me olhou dura nos olhos: tu peidoi, Nico? Eu hein… peidei não. (…) obrigado pelo sinal, Santo Expedito, obrigado mesmo, antes peidar que morrer. (…) (p. 135-136).

Sabe retratar como ninguém esse Brasil que peida! Que peida cheiroso! Que peida baixinho! Que coisa nojenta!!! Esse peido é um escambo! Escambo escatológico…

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