Idoso que evitou a falência da usina centenária em Campos-RJ mora numa casa improvisada e tenta receber crédito milionário na justiça;

Da redação 

No caminho do que promete ser uma safra milionária da centenária Usina Paraíso S.A., na cidade de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, tem um homem de 69 anos morando em um baú de caminhão improvisado como casa. Os cabelos grisalhos e a imagem descuidada afasta qualquer suspeita de que se trata do credor de uma dívida da indústria estimada em R$ 4 milhões (valores desatualizados).

Carlos Dias dos Santos, o Panela, o mesmo que vive em aparente penúria, cozinhando em fogão de lenha na cidade de São Fidélis, é o mesmo que repassou toda a quantia que recebeu de indenização de uma seguradora, no ano de 2012, para garantir a safra da indústria na fase que poderia fechar por falta de recursos. A transação, segundo ele, era uma compra futura de álcool. No entanto, seis safras já se passaram, a usina está em recuperação judicial e o personagem que seria o maior credor está excluído no polo passivo, tentando receber os valores por meio de uma ação judicial. Até hoje, segundo diz, “não viu uma única gota de álcool”.

O relato, guardadas as devidas proporções, pode ser comparado a uma versão local do filme “O Lobo de Wall Street” (The Wolf of Wall Street – 2014), protagonizado por Leonardo DiCaprio, e faz parte do roteiro de um vídeo-documentário produzido para o Canal VIU!

A usina Paraíso detém uma dívida tributária impagável. Estima-se em R$ 90 bilhões. Já foi a leilão três vezes, só não foi arrematada por falta de comprador. A recuperação judicial foi uma dádiva, por representar uma oportunidade de dilatação de prazos para pagamentos.

Depois da recuperação, a indústria já parcelou débitos trabalhistas e de alguns fornecedores, só que a maior beneficiada é a própria família Coutinho, que integra um grupo econômico que reúne fazendas e outras empresas e que constam como credores, assim como a Faria Corretagem que aparece como detentora de uma dívida acima de R$ 2 milhões.

Carlos Dias dos Santos, o Panela, durante entrevista para o vídeo-documentário do Canal VIU!. Ao fundo sua moradia improvisada numa carroceria baú de caminhão | Fotos: Roberto Joia

Panela foi um conhecido comerciante no ramo de conserto e fornecimento de molas de caminhão. Ganhou dinheiro no auge da indústria sucroalcooleira como fornecedor das usinas. Tinha como cliente o industrial Geraldo Hayem Coutinho, o patriarca da família que comanda a Paraíso na Baixada Campista.

“Era um homem honrado. Nunca ficou me devendo. Cheguei a vender para ele tendo como única garantia uma assinatura em guardanapo”, lembra.

Foi o auge de um clico que se esgotou no final da década de 80, quando já se consumava a falência contínua de dezenas de usinas. Panela fechou o comércio após as sucessivas crises econômicas.

A Usina Paraíso S.A., está localizada em Tócos, zona rural da cidade de Campos dos Goytacazes-RJ. Em recuperação judicial, a indústria tem os próprios donos entre os maiores credores

O comerciante viria a reencontrar Geraldo Coutinho – o filho e atual diretor executivo da empresa -, em 2012. “Na época não teria como iniciar a moagem devido à interrupção nas linhas créditos em agências bancárias”, relata Panela.

Gerente Regional da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), e sempre aparecendo em fotos ao lado de personalidades como ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Coutinho surgiu como uma informação que se verdadeira e noticiada na imprensa eclodiria como uma bomba no mercado:

“Segundo ele haveria um novo confisco na poupança, a exemplo do que ocorreu no governo Collor. Portanto, a compra de etanol no mercado futuro seria a melhor segurança. Eu acreditei”, lembra.

Como a usina não teria conta bancária apta a receber o aporte da indenização, a fórmula foi depositar parte do dinheiro na conta da Faria Corretagem Ltda, que atua intermediando venda de álcool produzido na Paraíso. Uma parte do dinheiro foi depositada e o restante entregue em mãos, por meio de parcelas. Há informações do credor sobre quantias enviadas em caixa de sapato.

Seria o negócio perfeito e seguro. O pagamento ao credor seria liquido e certo no prazo de quatro meses. O álcool seria retirado pela refinaria de Manguinhos, com repasses a empresa Faria Corretagem. Seria oitenta milhões de litros de etanol fornecidos à refinaria naquela safra.

Em  “O Lobo de Wall Street”, Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio, um corretor bem apresentado, sempre acompanhado de belas mulheres e levando uma vida de luxo, convence investidores a apostar em ações de risco com a promessa de retorno vantajoso. Muita gente acreditou nele, até o estouro da banca.

Carlos Dias, o Panela, um matuto avesso ao sistema bancário e traumatizado pelo confisco da era Collor, pode ter caído na armadilha do lobo do canavial.

Ex-integrante da cúpula regional da Firjan e membro do PSDB, o comandante em chefe da Paraíso S.A. sempre apareceu ao lado de figuras proeminentes. Nesta imagem extraída de sua página no Facebook, ele aparece ao lado do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso. “É sempre um momento de aprendizado e satisfação quando estou ao lado deste grande e verdadeiro estadista”, diz um trecho da postagem que informa sobre um almoço que antecedeu a “conversa descontraída”. Para convencer o credor da Paraíso, Geraldo Coutinho teria dito ser detentor de informações privilegiadas sobre planos de um suposto confisco no sistema financeiro, semelhante ao que ocorreu no governo Collor.  

Procurado pela reportagem de VIU ONLINE, o sócio da empresa Faria Corretagem, Amaro Ribeiro do Nascimento Júnior, por telefone, reconheceu a existência da dívida, mas questiona o valor. Ele também informou que o credor teria se recusado e entrar no polo passivo da recuperação judicial.

Reportagem também tentou contato com diretor executivo da Usina Paraíso, Geraldo Coutinho. Um encontro chegou a ser marcado na usina, mas foi desmarcado por dificuldades de agenda.

A recuperação judicial da Usina Paraíso está sendo administrada por um escritório de contabilidade do Rio de Janeiro.

*Agência VIU!

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