O presidente dos EUA, um republicano (quem diria!), enfrenta uma onda macarthista por suspeitas de ligações perigosas com a Russia;

Com agência AFP e EFE

O presidente americano, Donald Trump, defendeu-se nesta terça-feira (16/05) da acusação de ter passado informações sigilosas para a Rússia alegando que tem o “direito absoluto” de compartilhar dados reservados da Inteligência, em um caso que surpreende, inclusive, seus aliados no Congresso.

“Como presidente, quis compartilhar com a Rússia [em um evento aberto da Casa Branca], como é meu direito absoluto, fatos sobre terrorismo e segurança aeronáutica”, escreveu Trump em uma série de tuítes.

Além disso, expressou o presidente, queria que a “Rússia aumentasse de forma importante sua participação na luta contra o EI [Estado Islâmico] e o terrorismo”.

Desde a tarde de segunda-feira (15/05), Trump se encontra no centro de um escândalo de alcance imprevisível por denúncias de ter dado ao chanceler russo, Serguei Lavrov, informações da Inteligência consideradas extremamente secretas.

Na semana passada, Trump recebeu o chanceler no Salão Oval e, de acordo com relatos de vários jornais, nesta conversa, o republicano mencionou que o EI planejava ataques contra os Estados Unidos, usando laptops em voos.

DONALD TRUMP durante encontro com o chanceler russo, Serguei Lavrov na Casa Branca

Segundo fontes de alto escalão do governo, a informação foi oferecida aos Estados Unidos por um aliado com a condição de não repassá-la a ninguém, nem mesmo a outros países aliados, para não expor a fonte.

Durante uma cerimônia junto com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, Trump disse nesta terça-feira (16/05)  que “tivemos uma reunião bem-sucedida com o ministro russo das Relações Exteriores”, mas sem dar mais detalhes.

“DIÁLOGO APROPRIADO”

Em uma tentativa de dirimir as suspeitas, o conselheiro de Segurança Nacional, general Herbet McMaster, negou que Trump tenha dito algo “inapropriado” a Lavrov, reiterando que as denúncias se baseiam em uma história “falsa”.

“De nenhuma maneira, o presidente manteve um diálogo inapropriado, ou que resultasse de qualquer forma em uma exposição da segurança nacional”, disse McMaster.

Não obstante, o conselheiro da Presidência admitiu que Trump não havia sido informado de que a fonte desse dado sobre a segurança aeronáutica era extraordinariamente sensível.

Na visão de McMaster, Washington e Moscou possuem “interesses comuns” sobre o Estado Islâmico, e os dois países se beneficiariam de dados de Inteligência sobre como melhorar sua segurança aérea.

Por isso, é “completamente apropriado” compartilhar informações com a Rússia, disse McMaster.

Moscou também optou por minimizar todo o episódio. O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, opinou que todo caso era “um grande absurdo” e que “não é um tema que possamos confirmar, ou negar”.

Maria Zakharova, porta-voz da chancelaria russa, afirmou no Facebook que esse escândalo não passa de uma “notícia falsa”.

Este novo escândalo surge em meio ao terremoto político gerado há uma semana pela demissão de James Comey como diretor do FBI (a Polícia Federal americana). Ele investigava os contatos entre a Rússia e o comitê de campanha de Trump nas eleições do ano passado.

Em um gesto que acelerou as tensões políticas em um país com os nervos à flor da pele, Trump recebeu Lavrov na Casa Branca um dia depois de demitir Comey.

O influente senador republicano John McCain afirmou nesta terça-feira que as denúncias são “profundamente perturbadoras”.

Já o ex-diretor da CIA Leon Panetta disse à imprensa que os gestos e declarações de Trump “minam a credibilidade do gabinete da Presidência. É o presidente dos Estados Unidos, não um astro de um reality show”.

No plenário do Senado, o legislador democrata Tom Udall foi mais brutal: “não acredito que haja um paralelo em nossa história de semelhante falta de discrição presidencial ou tão perigosa incompreensão sobre como administrar informações secretas”.

O chefe do bloco democrata no Senado, Chuck Schumer, disse que a gravidade das denúncias tornou necessário que “o governo forneça ao Congresso a transcrição da conversa do presidente Trump com os funcionários russos”.

Até o líder da Comissão de Relações Exteriores, senador Bob Corker, admitiu que a Casa Branca está em uma “espiral descendente” e considerou urgente que “façam algo para recuperar o controle e a ordem. É o que tem que acontecer”.

O mais antigo senador no cargo, o democrata Patrick Leahy, disse à imprensa que “nossas instituições estão caindo aos pedaços”.

Já o senador conservador Jim Risch concentrou sua fúria nos funcionários da Casa Branca que vazaram para a imprensa o que aconteceu na conversa entre Trump e Lavrov. Para Risch, foi um gesto típico de “algum traidor”.

A Comissão de Assuntos de Inteligência da Câmara de Representantes confirmou que o diretor da CIA, Mike Pompeo, comparecerá a uma audiência na próxima terça.

COMITÊ DE INTELIGÊNCIA

Nesta terça-feira (16/05), o Comitê de Inteligência da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos (EUA) solicitou ao FBI todos os documentos que seu ex-diretor James Comey elaborou sobre as conversas com o presidente Donald Trump.

A petição, assinada pelo presidente do comitê, o republicano Jason Chaffetz, inclui “memorandos, notas, resumos e gravações” em poder do FBI, para que sejam entreguem antes do dia 24 de maio.

“Se for verdade, esses memorandos apresentam dúvidas sobre se o presidente tentou influenciar ou impedir a investigação do FBI no que se refere ao general (Michael) Flynn”, disse Chaffetz, em carta dirigida ao diretor interino do FBI, Andrew G. McCabe.

A solicitação é feita depois que o jornal The New York Times revelou a existência de documentos elaborados por Comey, a fim de documentar suas conversas com Trump.

Em um desses documentos, há o pedido de Trump para que Comey encerrasse uma investigação das ligações da Rússia com seu ex-assessor de Segurança Nacional, o general aposentado Michael Flynn.

“Espero que possa deixar isso passar”, disse Trump a Comey, segundo o texto divulgado pelo jornal. “É um bom sujeito”, acrescentou o governante, de acordo com o The New York Times.

Na semana passada, Trump demitiu James Comey, que comandava a investigação do FBI para esclarecer as ligações dos russos com a campanha presidencial de Trump, um assunto também abordado pelo Congresso.

Também na semana passada, o Comitê de Inteligência do Senado ordenou que Comey entregasse todos seus documentos relacionados com a Rússia, depois de ele se negar a colaborar com a investigação.

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