O PT está literalmente perdido no sentido de um projeto de transformação da sociedade brasileira; a inépcia da esquerda em romper a bolha petista nos movimentos sociais;

Militei no Partido dos Trabalhadores (PT) de 1981 a 1990 e objetivamente passei esses anos todos utilizando o máximo da minha energia para a construção de um partido que permitisse elevar a consciência de classe da classe trabalhadora.  Quis o destino que eu passasse quase 7 anos fora do Brasil, e quando voltei em 1997 o partido que eu havia ajudado a construir tinha começado seu inexorável movimento pendular para a direita, tendo como seus timoneiros Lula e José Dirceu.

A minha decisão já no momento da volta foi de me afastar do PT e adotar uma posição de distanciamento da militância partidária, optando por usar o meu conhecimento na formação de jovens pesquisadores que olhassem a realidade brasileira com lentes críticas que eventualmente ajudariam a consolidar um processo de entendimento útil para a transformação da nossa abjeta realidade social.

Ao longo dos anos de dominância do PT e de seu projeto de conciliação de classes fui um crítico quase solitário das múltiplas mazelas da visão neodesenvolvimentista que foi aplicada para injetar centenas de bilhões de recursos públicos em projetos capitalistas que eram social e ambientalmente destrutivos, vide o caso lapidar do Porto do Açu.  A própria aproximação do ex-bilionário Eike Batista das hostes petistas foi para mim uma confirmação de que o PT está literalmente perdido no sentido de um projeto de transformação da sociedade brasileira. O PT é acima de tudo um partido da ordem social que seus dirigentes buscam preservar a todo custo, em que pesem os custos pesados que eles mesmos recebem das elites ingratas a quem tão bem servem.

Agora, convenhamos, apesar de todos esses elementos, seria um erro primário desconsiderar o alcance que a figura política de Lula ainda possui para milhões de brasileiros pobres e, por isto mesmo, é tão grande a perseguição para que ele se ajuste ainda mais à defesa da ordem. Essa pressão que ora aparece na forma de pressões judiciais não é nova, mas assume todos de caricatura jurídica para garantir que Lula siga cumprindo seu papel de artífice da conciliação de classes.

Nesse quadro todo fica ainda mais evidente o despreparo e a inépcia dos chamados partidos da esquerda revolucionária para romper a bolha do petismo nos movimentos sociais e sindicatos. Eu pessoalmente associo essa incapacidade a uma falta de superação da crise causada pela implosão da URSS da qual a maioria da esquerda mundial ainda se ressente. Nesse sentido, a persistência do ônus da dominância stalinista na esquerda mundial surge no Brasil como um espectro que impede o florescimento de alternativas reais a Lula e ao PT. Para somar a isso há ainda a armadilha das multi identidades que foi imposta para fragmentar a classe operária, de forma a impedir que se possa superar a crise na organização mundial do proletariado.

Tal situação impõe tarefas claras para o período imediato, na medida em que os ataques aos direitos dos trabalhadores somente tenderão a aumentar.  Mas para que haja uma solução de fato há que se superar a fragmentação na esquerda no interior dos estados nacionais e que se parta para a formação de algo que se assemelhe a um organização mundial.  Essa é a tarefa pendente desde que Josef Stalin domesticou a III Internacional ao seu projeto de “socialismo em um só pais”. Resta saber se haverá disposição para enfrentar essa tarefa hercúlea.

Enquanto isso, querendo ou não, viveremos na dependência da disposição de Lula para minimizar os estragos que sua própria política de conciliação de classes vem causando aos trabalhadores brasileiros. Não deixa de ser um “catch 22”, mas é o que temos para o momento. E como dizia o coelho Pernalonga ao fim de cada um dos seus episódios… That´s all folks!

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