Esquema comandado por Sérgio Cabral e Sérgio Côrtes teria desviado R$ 16,4 milhões em compras de materiais médicos;

Da redação

O ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral é acusado pelo Ministério Público Federal (MPF) de receber R$ 16,4 milhões da empresa de materiais médicos Oscar Iskin, em repasses mensais de até R$ 450 mil por mês. As informações são da Agência Brasil.

A Polícia Federal e o MPF cumpriram nesta terça-feira (11/04) três mandados de prisão preventiva contra suspeitos de integrar a quadrilha. No âmbito da Operação Fatura Exposta foram pedidas as prisões do ex-secretário Sérgio Côrtes, do empresário Miguel Iskin e do suspeito de ser seu operador no esquema, Gustavo Estellita.

A PF deslocou 102 agentes para a operação, que inclui uma série de mandados de busca e três conduções coercitivas. Segundo informações da Procuradoria da República no Rio de Janeiro, Cabral recebia 5% do esquema de fraudes na compra de equipamentos médicos e próteses que supostamente envolvia também o ex-secretário de Saúde Sergio Côrtes e os empresários Miguel Iskin e Gustavo Estellita.

O ex-secretário de saúde que também foi diretor do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia e os dois empresários foram alvo de mandados de prisão preventiva. Côrtes é acusado de receber 2% do valor dos contratos celebrados entre a Secretaria e a Oscar Iskin. Além disso, segundo o MPF, Côrtes e Iskin são acusados de dividir 40% do valor dos contratos e depositá-lo em uma conta aberta no Bank of America, nos Estados Unidos.

Segundo os procuradores da República, o esquema envolvia um chamado “clube do pregão internacional”, do qual participam até hoje empresas que atuam em licitações de forma combinada.

Segundo o MPF, Miguel Iskin orientava Côrtes, que foi secretário de 2007 a 2013, a incluir nos produtos a serem licitados especificações técnicas restritivas de concorrência. Estellita seria o operador financeiro de Iskin, de acordo com os procuradores.

O esquema também teria funcionado no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), instituto federal do qual Côrtes foi diretor de 2002 a 2006. A operação Fatura Exposta é um desdobramento das operações Calicute, que resultou na prisão de Cabral no ano passado, e Eficiência, que resultou na prisão do empresário Eike Batista neste ano.

Os Procuradores afirmaram que o esquema de corrupção supostamente liderado pelo ex-governador havia se alastrado para todas as áreas do governo. Em uma entrevista coletiva à imprensa, os procuradores Eduardo El Hage e Rodrigo Timoteo detalharam desvios e adiantaram que até o fim do ano novas revelações serão feitas sobre corrupção em outras áreas.

“Isso não era setorizado no Rio de Janeiro. O governo Cabral roubou dos cofres públicos em todas as áreas, e até o final do ano vamos mostrar isso. Essa é mais uma perna de um esquema criminoso que se instalou”, disse El Hage.

O auditor da Receita Federal Cleber Homem da Silva também participou da coletiva e informou que a estimativa dos investigadores é que os desvios cheguem a R$ 300 milhões entre 2007 e 2016, já que contratos firmados no esquema de corrupção permanecem em vigor até hoje.

ENTENDA O ESQUEMA

O ex-secretário de saúde e ex-diretor do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia Sérgio Côrtes receberia 2% de contratos firmados para aquisição de equipamentos e próteses. O ex-governador ficaria com mais 5%, que renderam a Cabral ao menos R$ 16,4 milhões no período investigado. O percentual que era desviado chegava a 10% dos contratos, com recursos destinados também a operadores do esquema, servidores públicos e ao Tribunal de Contas do Estado, segundo o MPF.

Os pagamentos seriam depositados em uma conta no exterior, pertencente ao empresário Miguel Iskin. A investigação rastreou que, recentemente, Iskin tentou repatriar R$ 70 milhões. Ele é o dono de empresas fornecedoras de equipamentos e próteses ao estado do Rio e ao Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into) e também teria comandado um cartel internacional para assumir contratos abertos em pregões eletrônicos.

Por meio dos pregões, a quadrilha chegava a arrecadar 40% dos contratos internacionais, acrescentando nos custos o valor de tributos que não precisavam ser pagos na importação.

Os procuradores e delegados da Polícia Federal afirmaram que as investigações continuam, inclusive para identificar se agentes públicos sucessores de Côrtes continuaram a se beneficiar do esquema. Órgãos como o Tribunal de Contas da União, o Ministério da Transparência e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) devem participar das investigações agora que a operação foi deflagrada.

O procurador Rodrigo Timoteo disse que a operação até então se concentrou em contratos de próteses e equipamentos, mas os indícios apontam um possível alastramento em “todo o sistema de saúde do estado do Rio de Janeiro”.

Apesar de o esquema contar com técnicas sofisticadas de criptografia, segundo o MPF, muitas informações foram obtidas porque o operador de Cabral, Luiz Carlos Bezerra, mantinha um caderno manuscrito com detalhes de pagamentos de propina. Os procuradores contaram ainda que Bezerra costumava mandar e-mails para si mesmo com esses dados.

DEPOIMENTO COMBINADO

Sérgio Côrtes é suspeito também de tentar combinar depoimento com o investigado que prestou as informações em um acordo de colaboração premiada. Ele não teve seu nome revelado pelo MPF na coletiva.

Segundo os procuradores, Côrtes foi ao escritório do colaborador e ainda enviou um representante para oferecer o custeio da defesa do investigado. O colaborador gravou os encontros com câmeras em seu escritório e entregou os vídeos à operação.

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